Entenda como vai funcionar a intervenção da Prefeitura no Hospital de Caridade

Na manhã desta quinta-feira (20) a Prefeitura Municipal de Canguçu deu início a uma intervenção dada de forma consensual pela comissão de administração do Hospital de Caridade de Canguçu. A partir desta data, o Poder Executivo assume a gestão da instituição.

Em uma coletiva de imprensa, o Prefeito Municipal, Vinicius Pegoraro (MDB), destacou que não é o fim do problema, e que há um longo caminho para trilhar e que a intervenção é “uma resposta esperada para essa questão que vem se agravando há meses”. Nos últimos dias, a instituição estava com um único paciente internado, todas as cirurgias suspensas e sem atendimento na ginecologia, obstetrícia e pediatria.

“A partir de hoje, o Poder Público, atendendo o pedido da diretoria, o corpo clinico do hospital está assumindo a gestão. Não foi uma decisão isolada, mas construída em conjunto, ouvindo a comunidade. O processo que agora se efetiva, teve início há cerca de 5 meses Assumir o hospital de canguçu certamente será o maior desafio de nossa gestão.” — ressaltou Pegoraro.

O chefe do executivo ressaltou ainda que a postura adotada é de parceria do governo com as entidades, sendo essa uma marca da administração. Em apresentação à imprensa, Pegoraro reforçou a busca da gestão municipal em uma redução de despesas “para que os recursos públicos contemplassem de forma mais adequada a demanda da comunidade.”

— Nos últimos dois anos, foram aplicados R$ 6.583.242,87. Destes, R$1.225.000 foram de recursos extras, ou seja, são valores além dos contratos com a instituição, em aportes emergenciais para ajudar a casa de saúde. — explicou.

ARRUMAR A CASA

Na apresentação, Pegoraro destacou ainda que, em um trabalho conjunto com a diretoria, o Poder Executivo já deu início a um trabalho de reestruturação.

Com a intervenção, a Administração tem um longo e difícil caminho para organizar a casa: A UTI está fechada, os serviços de fisioterapia não tiveram contratualização com o estado, os exames laboratoriais tiveram seu número reduzido nos últimos meses e o Hospital não realiza nenhum tipo de cirurgia há semanas.

Além disso, o maior desafio surge com os números: a Prefeitura repassa R$ 221.300,00 mensalmente para a casa manter os serviços do Pronto Socorro, anestesiologia, pediatria, ginecologia e obstetrícia. O contrato com o Estado, renovado na metade deste ano corresponde a R$ 383.000,00 e a receita com as internações particulares e convênios é de R$ 127.000,00.

Assim, o potencial de receita gira em torno de R$ 732 mil, enquanto que a despesa mensal é de R$ 1.228.000,00. Esse déficit não só dificulta a manter a casa de saúde, como aumenta a dívida da instituição mês a mês. Atualmente, essa dívida com fornecedores, órgãos do governo, agentes bancários e financeiros ultrapassa os R$ 25 milhões.

“Conseguimos colocar os salários dos funcionários em dia, adquirir medicação para retomada das internações, estamos buscando agora a retomada dos serviços de maternidade, e as cirurgias de urgência já possuem um plano. Já temos uma nova proposta de contrato que será novamente apresentada ao governo do estado em 2019. As internações estão sendo trabalhadas para retomar, e nós ainda estamos negociamos as cirurgias. O hospital precisa aumentar sua receita, para diminuir o déficit. Precisamos fazer o hospital voltar a produzir para receber os recursos a nível estadual.” — reforçou Pegoraro.

Segundo o chefe do Executivo, o momento é de reformular as ações, selecionar e retomar alguns processos, e aumentar o aporte de recursos para a casa de saúde. Pegoraro destacou ainda a união do Legislativo na busca pela captação de emendas parlamentares. Algumas delas já estão encaminhadas para o próximo ano. Estão garantidos também, dois recursos de R$ 200 mil cada, oriundos do Executivo e do Legislativo para os próximos dias.

“As cirurgias não retornam de imediato. As primeiras áreas que serão restabelecidas serão a obstetrícia, a ginecologia e a pediatria. Os últimos recursos destinados foram usados para a compra de insumos para a retomada das internações. Agora, seguimos o trabalho de negociação com as outras áreas para retomar os serviços.” — explicou o prefeito.

Pegoraro ressaltou ainda que a Administração Municipal deverá buscar junto á Receita Federal e ao Ministério da Fazenda a renegociação de alguns processos, que possibilitarão a retomada das negativas do hospital para poder acessar e captar recursos.

“Se tirarmos as parcelas que o hospital mensais tem que pagar do endividamento, já diminui drasticamente. Só para o Banrisul e a Caixa Econômica são R$ 183 mil reais mensais. O hospital depende muito do repasse do governo do estado. Nós reconhecemos a dificuldade que ele está passando. Só para Canguçu a dívida do Estado já ultrapassa R$ 2,9 milhões. A gente acredita que normalizando os repasses do Estado e o aporte extra da Prefeitura, poderemos reverter essa situação de frequentes atrasos dos salários dos funcionários do Hospital” — explicou o prefeito.

Para Pegoraro, este será o maior desafio que a administração irá enfrentar.

UNIÃO DO PRONTO SOCORRO COM O PRONTO ATENDIMENTO

Foi anunciado ainda uma reestruturação para que o Pronto Atendimento Municipal funcione paralelamente ao Pronto Socorro, com a proposta de reduzir custos para aumentar nos repasses a instituição hospitalar. A reestruturação, segundo o prefeito, ainda está em desenvolvimento e ainda não tem data definida para entrar em prática.

Com o aumento dos repasses e a nova estrutura, é esperado a longo prazo ainda a busca por novas especialidades ao Pronto Atendimento.

NOVO GESTOR É ANUNCIADO

Na coletiva foi apresentado ainda o novo gestor da casa. Gabriel Andina carrega a experiência de ser ex-titular da 3ª Coordenadoria Regional de Saúde (CRS), com sede em Pelotas. Em fala, o novo gestor, destacou que será uma missão de vida reestabeler a casa de saúde.

Andina ressaltou que, nos últimos meses que tem acompanhado a consultoria do sírio-libanês sentiu a falta um planejamento estratégico. Segundo ele, o hospital costuma tomar medidas paliativas (apagar incêndio todo dia) e não tem um plano com medidas de curto médio e longo prazo, nem metas estabelecidas para todos os períodos.

“O hospital não pode só sobreviver para pagar os funcionários e fornecedores. Ele tem que ter um plano de investimento bem definido para que possa ter capacidade de ampliar e capacitar serviços, saber quais investir e qual terão mais retorno. Além disso, é necessário um Plano de Custo, fazendo um levantamento específico para apontar o custo e a arrecadação de cada setor, para que possamos qualificar e otimizar o uso dos recursos públicos” — argumentou Andina.

Segundo o novo gestor, algumas medidas precisam ser tomadas, como a realização de uma auditoria, a definição de uma central de compras e uma redução de custos, sem perder a qualidade no atendimento.

A instituição, que foi fundada em 1948 sem intuito de lucratividade, e é referência para Santana da Boa Vista e Morro Redondo, possui atualmente 178 funcionários, capacidade de 117 leitos, sendo 60% deles para o Sistema Único de Saúde (SUS).

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