A estratégia recente da Adidas parece flutuar entre dois mundos completamente opostos, testando os limites tanto da tecnologia de elite quanto do varejo popular. De um lado, a marca alemã choca o mercado com um produto de altíssimo desempenho — e preço salgado — que dura apenas uma corrida; do outro, promove uma queima de estoque agressiva em modelos casuais, criando um cenário curioso para os fãs da marca.
A polêmica do descartável de luxo
A pergunta soa absurda, mas é real: você desembolsaria 500 dólares, o equivalente a cerca de R$ 2.500, em um par de tênis projetado para ser usado uma única vez? Enquanto a resposta da maioria seria um sonoro “não”, a Adidas aposta que, para um grupo seleto, isso faz todo o sentido. O protagonista dessa controvérsia é o Adizero Adios Pro Evo 1, o calçado mais leve já fabricado pela empresa, criado com um objetivo claro: desbancar a hegemonia da Nike nas maratonas.
O problema, entretanto, reside na durabilidade. Na busca obsessiva por leveza, a empresa “sacrificou” a estrutura do tênis a tal ponto que sua vida útil se resume a uma única maratona. Normalmente, equipamentos dessa categoria aguentam pelo menos quatro provas longas. A situação gera apreensão até entre especialistas, que temem que o material comece a se degradar durante os próprios 42 km da prova, colocando o atleta em risco. Mesmo diante das críticas sobre a falta de sustentabilidade de um produto “descartável” e caríssimo, a Adidas mantém o preço, alegando que o valor reflete o design e os materiais de ponta.
A guerra tecnológica contra a Nike
O contexto dessa ousadia é a rivalidade histórica com a linha Vaporfly da Nike. Desde 2017, o modelo da concorrente, equipado com placa de fibra de carbono e espuma Pebax, revolucionou o esporte ao melhorar o tempo dos corredores em cerca de 4%. Outras marcas, como New Balance e Hoka, correram atrás dessa tecnologia, mas a Adidas quer ir além.
O novo Adizero é cerca de 25% mais leve que o Vaporfly atual e promete reduzir 20 segundos do tempo de um maratonista de elite. A tecnologia envolve uma nova espuma para captura de energia e uma sola curvada. Porém, o ceticismo permanece: ainda não há evidências concretas, baseadas em longos períodos de testes, que comprovem essa vantagem de performance, algo que o Vaporfly levou anos para consolidar. Por enquanto, o acesso é restrito: apenas 521 unidades foram vendidas, exclusivamente para atletas capazes de completar uma maratona abaixo de 3 horas e 30 minutos.
Conforto acessível na outra ponta
Se a realidade de tênis descartáveis para a elite parece distante, a Adidas oferece um cenário bem diferente para o consumidor do dia a dia nos Estados Unidos. Enquanto discute-se a viabilidade do modelo de 500 dólares, a marca está liquidando o modelo Lite Racer Adapt 7.0 por apenas 17 dólares (cerca de R$ 85 na conversão direta), um desconto impressionante de 76% sobre o preço original de 70 dólares.
Essa promoção, que ocorre através da loja oficial da marca no eBay, exige o uso combinado dos códigos “JANUARY50” e “FAVEFINDS20”. Diferente do modelo de maratona, o foco aqui é praticidade e conforto urbano. O tênis possui um design “slip-on” (sem cadarço de amarrar), com estrutura que imita uma meia e entressola Cloudfoam.
A demanda por essa opção mais racional tem sido alta, com mais de mil pares vendidos em um intervalo de 24 horas. No momento, restam poucas variações de cores, concentrando-se no modelo “Core Black/Grey Six”, mas com uma grade de tamanhos ainda ampla, atendendo do 39 ao 46 (na numeração masculina brasileira aproximada). As avaliações reforçam o apelo casual: compradores destacam a facilidade de calçar e o conforto para tarefas rotineiras, um contraste gritante com a complexidade e a fragilidade do seu “irmão” rico e descartável.