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Entre a Química Humana e a Revolução Artificial: Os Novos Caminhos do Audiovisual Asiático

O entretenimento asiático domina as telas do mundo todo, mas as estratégias por trás de seus maiores sucessos estão seguindo caminhos completamente opostos. Enquanto algumas produções apostam todas as fichas no calor das emoções humanas e na química inegável entre os atores, outras se agarram a tecnologias de ponta para sobreviver a uma crise financeira sem precedentes.

É impossível falar de conexões genuínas sem citar a febre dos doramas tailandeses. Um dos maiores exemplos recentes é Love in the Air, uma série que virou porta de entrada para muita gente no universo dos romances BL (Boys Love). A trama não tenta reinventar a roda: temos Rain, um cara considerado fofo por todo mundo, mas que nunca conseguiu engatar um namoro. Para o azar dele, a garota que ele curte está de olho em Phayu, o veterano que faz um sucesso absurdo graças àquela típica pinta de bad boy inatingível.

O destino, com sua ironia clássica, acaba cruzando o caminho dos dois. Rain decide que a melhor jogada é arruinar a reputação do aluno mais cobiçado da escola para finalmente ter uma chance com a garota. Adaptada das novels Love Storm e Love Sky, da autora MAME, a série explora o verdadeiro significado do amor e da amizade no meio de traições e amores proibidos. Disponível no Viki desde 2022, com 10 episódios de quase uma hora, a força da obra mora no elenco. Chaikamon Sermsongwittaya, Nuttarat Tangwai, Thitipong Sengngai e Wasuthorn Chaijinda entregam uma química tão palpável que prende o espectador do início ao fim. O sucesso absoluto desse dorama prova que, muitas vezes, o público só quer ver uma história de amor bem contada, guiada puramente pela interação humana.

Mas se na Tailândia a aposta no carisma humano rende frutos bilionários, a vizinha Coreia do Sul — tradicional gigante do setor — enfrenta um cenário bem mais amargo, onde o foco passou a ser puramente a sobrevivência.

Os números do Conselho de Cinema Coreano dão calafrios: em 2025, o público nos cinemas caiu 13,8% e a receita dos filmes nacionais despencou quase 40%. O Ministro da Cultura, Chae Hwi-young, definiu a situação da indústria criativa como um estado de “desespero”, apontando que as produções comerciais caíram drasticamente de umas 60 para pouco mais de 20 ao ano. A fonte de investimentos secou. Com o ecossistema colapsando, cineastas renomados estão apelando para orçamentos minúsculos. Yeon Sang-ho, diretor do aclamado Invasão Zumbi, fez o filme The Ugly (2025) com parcos 150 mil dólares. O longa atraiu um milhão de espectadores antes de pousar na Netflix, provando que a criatividade precisa dar seus pulos quando falta dinheiro.

É exatamente nesse vácuo que a gigante CJ ENM resolveu testar os limites do cinema com The House. O thriller ocultista de 60 minutos, que acabou de estrear na plataforma de streaming TVING, acompanha uma jovem que se muda para um prédio caindo aos pedaços e descobre que consegue ver espíritos. Sendo bem sincero, a história em si deixa muito a desejar. É o típico terror esquecível que se apoia em atmosferas sombrias batidas, sangue digital e sustos baratos para tentar mascarar um roteiro raso.

A verdadeira inovação de The House não está na tela, mas na forma como ele foi feito. O filme é um laboratório híbrido para a inteligência artificial. A produção inteira custou apenas 337 mil dólares — pelo menos cinco vezes mais barato que uma gravação convencional do mesmo porte. Tudo foi gravado em estúdio com fundo verde, em míseros quatro dias. Todos os cenários e efeitos visuais foram gerados por IA, usando ferramentas do Google como Imagen, Nano Banana e Veo.

Jeong Chang-ik, chefe do estúdio de IA da CJ ENM e produtor do longa, resumiu a mudança de paradigma: para a máquina, renderizar um personagem tomando um café ou lutando contra um monstro assustador tem praticamente o mesmo custo. O ator Kim Shin-yong, que faz um guarda na história, comentou que a experiência foi superior à do velho chroma-key cego, já que ele conseguia atuar vendo os cenários completos em tempo real, facilitando muito a imersão.

Obviamente, essa adoção acelerada reacende o pânico global sobre substituição de mão de obra e perda de controle criativo, os mesmos fantasmas que pararam Hollywood nas greves de 2023. Mesmo assim, os executivos envolvidos no projeto batem na tecla de que a intenção não é roubar o trabalho de ninguém. Baek Hyun-jung, chefe de inovação da CJ ENM, e Ahn Sung-min, do Google Cloud Korea, defendem que a IA serve para viabilizar as intenções dos criadores sem o custo esmagador da logística tradicional, preservando a expressividade única dos atores.

No fim das contas, The House chega ao mercado muito mais como uma prova de conceito do que como cinema de arte. Dá para notar as costuras visuais, e as ferramentas de IA ainda tropeçam feio para manter a consistência em narrativas mais longas. O contraste é gritante: enquanto o público global se derrete pelas interações orgânicas de Love in the Air, a indústria luta nos bastidores para descobrir se o futuro do entretenimento será salvo pelas emoções genuínas ou pelos códigos artificiais.